Uma Esquizoanálise Tupiniquim

A esquizoanálise não deve ser entendida propriamente como um método. Podemos imaginá-la como uma espécie de caixa de ferramentas conceituais para pensar, questionar e produzir outras possibilidades de existência. Esses instrumentos podem ser utilizados por diferentes profissionais e agentes sociais, como o trabalhador da saúde, o professor, o operário, o artista e todos aqueles que, de alguma maneira, participam dos processos de produção da vida e das relações sociais.

Nesse sentido, podemos compreendê-la também como uma espécie de manual anticapitalista porque sua própria construção teórica e política se orienta por uma crítica às formas de organização da sociedade capitalista. Existe, portanto, uma direção política marcadamente à esquerda em seu pensamento, uma vez que ela questiona as estruturas de poder, as relações de exploração e os mecanismos que sustentam a desigualdade social.

Uma das principais críticas que podemos estabelecer ao capitalismo diz respeito à falácia da meritocracia, frequentemente utilizada como discurso para ocultar as condições materiais que determinam as possibilidades de cada indivíduo. Afinal, o capital e o dinheiro não estão distribuídos de maneira igualitária, mas concentrados nas mãos de uma classe dominante que historicamente controla os meios de produção. Enquanto essa classe mantém o controle sobre os recursos e as condições de produção da riqueza, a maior parte da população, incluindo a classe média, a classe pobre e a classe operária, permanece afastada desse controle e, consequentemente, cada vez mais submetida à dependência econômica e à escassez de recursos.

O capitalismo, entretanto, não é um sistema estático. Ele se renova continuamente, embora essa renovação não represente uma verdadeira reinvenção, mas sim a repetição de suas próprias estruturas e contradições sob novas configurações. É um sistema que encontra nas crises climáticas e econômicas, nas guerras e no fascismo importantes mecanismos de sustentação e reprodução de seu poder. Esses acontecimentos não devem ser compreendidos apenas como acidentes ou desvios de seu funcionamento, mas como fenômenos que podem ser incorporados à sua lógica de manutenção e expansão, garantindo a continuidade de uma produção hegemônica. Precisamos entender que o fascismo sempre foi o mantenedor do sistema quando ele esta falindo, ou quando os seus povos começam a se insurgir.

É justamente nesse contexto que a esquizoanálise assume sua posição política, voltando seu olhar para aquilo que as estruturas dominantes historicamente excluem, silenciam ou colocam à margem. As políticas de esquerda, nessa perspectiva, são também as políticas das minorias, dos grupos historicamente subalternizados e das populações que não ocupam os lugares privilegiados de poder. Estamos falando das identidades periféricas, das mulheres, da população negra, da comunidade LGBTQIA+, das pessoas com transtornos mentais, historicamente classificadas e institucionalizadas sob a categoria da loucura, e também das crianças, cujas formas de expressão, pensamento e existência frequentemente são submetidas às normas estabelecidas pelos adultos.

Essas comunidades e identidades minoritárias são constantemente atravessadas pelas relações de poder hegemônicas, que procuram determinar seus lugares sociais, limitar suas possibilidades de expressão e mantê-las em condições de subserviência. Em diferentes momentos históricos, essas populações foram submetidas a formas de exploração, silenciamento e escravização, seja em seu sentido literal, seja por meio de mecanismos sociais, econômicos e institucionais que restringem sua autonomia. A esquizoanálise, ao colocar essas relações em questão, procura justamente compreender como os processos de subjetivação são atravessados por essas forças e como podem produzir outras formas de resistência e existência.

Do ponto de vista de suas referências teóricas, a esquizoanálise possui uma importante base marxista, mas também dialoga com diferentes tradições filosóficas e com a própria psicanálise. Nesse diálogo, é importante reconhecer a contribuição de Freud, especialmente em suas formulações sobre o inconsciente e os objetos parciais, que oferecem elementos para pensar o desejo e os processos de produção da subjetividade para além de uma compreensão exclusivamente individual ou familiar.

Entretanto, os autores da esquizoanálise, especialmente Deleuze e Guattari, estabelecem uma crítica a determinadas formulações da psicanálise freudiana, particularmente àquilo que identificam como uma perspectiva familiarista do inconsciente. Trata-se de um Freud interpretado a partir da centralidade das relações familiares, organizadas em torno das figuras do pai e da mãe e da estrutura triangular do complexo de Édipo. Para Deleuze e Guattari, essa leitura acaba por reduzir a produção do desejo a uma organização familiar, deixando em segundo plano as dimensões sociais, políticas, históricas e econômicas.

Essa crítica não significa simplesmente abandonar a psicanálise ou desconsiderar a importância de Freud, mas questionar a maneira como determinadas interpretações psicanalíticas acabam subordinando o desejo a uma organização social marcada por valores patriarcais. A esquizoanálise propõe ampliar esse campo de compreensão, considerando que o inconsciente está diretamente conectado aos processos sociais, às instituições, às relações de poder e aos modos de produção da própria sociedade.

Considero fundamental trazer esse pensamento cada vez mais para o contexto latino-americano e, particularmente, para a realidade brasileira. Não podemos continuar reproduzindo uma concepção colonizada de conhecimento, na qual as ideias e as teorias parecem ter sempre sua origem legítima na Europa. A realidade brasileira possui particularidades históricas, culturais e sociais que não podem ser inteiramente compreendidas a partir de categorias formuladas em outros contextos. Nossa experiência é atravessada pela colonização, pela escravidão, pelo racismo estrutural, pelas desigualdades econômicas, pela diversidade cultural e por formas muito específicas de organização do poder e da subjetividade. Tudo isso precisa participar da construção de um pensamento que seja capaz de interpretar nossa própria realidade.

No Brasil, autores como Suely Rolnik, Gregório Baremblitt, Peter Pál Pelbart, Domenico Hur contribuíram para ampliar as discussões sobre desejo, subjetividade, micropolítica, instituições, clínica e produção de modos de existência. Suas contribuições permitem compreender e ampliar o diálogo com pensadores que oferecem ferramentas fundamentais para uma perspectiva contracolonial. Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Ailton Krenak, Nêgo Bispo e Silvia Rivera Cusicanqui, cujas reflexões sobre racismo, colonialidade, ancestralidade, território, identidade e produção de conhecimento ajudam a questionar os modelos hegemônicos de interpretação da realidade.

Incorporar essas perspectivas significa reconhecer que os processos de subjetivação na América Latina não podem ser compreendidos sem considerar a colonização, a escravidão, o racismo, a violência contra os povos originários, a exploração econômica e as diferentes formas de apagamento cultural e epistemológico.

Precisamos reconhecer que também estamos produzindo conhecimento, elaborando conceitos e construindo formas próprias de interpretar as relações sociais, políticas e subjetivas que atravessam nossa existência. É nesse ponto que surge a necessidade de construir uma esquizoanálise efetivamente brasileira e latino-americana, capaz de utilizar as ferramentas conceituais de Deleuze e Guattari sem transformá-las em referências intocáveis. Precisamos deixar de ocupar exclusivamente o lugar de consumidores de teorias produzidas em outros territórios e reconhecer nossa própria capacidade de produzir conceitos, práticas e conhecimentos.

Talvez seja nessa direção que possamos pensar uma esquizoanálise tupiniquim, assumindo uma atitude antropofágica diante do conhecimento: devorar referências, incorporar aquilo que nos potencializa, transformar o que recebemos e produzir algo que não existia anteriormente. uma esquizoanálise que propõe uma atitude: a capacidade de apropriação, mistura, transgressão e criação de pensamento a partir da nossa própria experiência histórica.

Uma esquizoanálise que reconheça a potência dos povos indígenas, das culturas afro-brasileiras, das comunidades periféricas, das manifestações populares e das experiências coletivas que constituem nosso território.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *