A aproximação entre a situação da acupuntura e a metodologia do divã na psicanálise permite ampliar a discussão sobre a relação entre corpo, dependência e presença, deslocando o foco da experiência corporal isolada para as condições que favorecem determinadas modalidades de recolhimento psíquico. Tanto na maca quanto no divã, o sujeito permanece deitado, reduz parcialmente a interação visual com o outro e ocupa uma posição na qual a comunicação não depende necessariamente do contato face a face. Essa disposição modifica a organização habitual do encontro, uma vez que diminui a importância de determinados sinais sociais e pode favorecer uma atenção mais intensa às próprias sensações, pensamentos e experiências internas.
A hipótese que orienta este artigo é a de que a situação de espera controlada proporcionada pelo tratamento de acupuntura e/ou no divã psicanalítico podem favorecer, em algumas pessoas, uma reavaliação temporária das formas habituais de controle. Essa condição pode aproximar o paciente de experiências relacionadas à dependência e à passividade, permitindo investigar como a presença de um outro pode contribuir para que essa condição não seja necessariamente vivida como abandono.
Não se pretende afirmar que esses dispositivos reproduzam as condições do desenvolvimento inicial ou que o paciente retorne literalmente à experiência do bebê. No entanto, determinadas características do procedimento, como a espera controlada com a presença do profissional, a imobilidade, a duração e o silêncio, podem favorecer certas experiências psíquicas.
A aproximação entre os dispositivos envolvidos exige que diferenças entre eles sejam preservadas. A acupuntura pertence a uma tradição terapêutica própria, com fundamentos históricos e conceituais específicos. Na medicina tradicional chinesa, o corpo não é pensado como uma dinâmica de fluxos, tensões, ritmos e relações, podemos utilizar essa concepção como uma espécie de linguagem paralela à compreensão dos processos de constituição psíquica e das relações de objeto dentro da psicanalise.
A articulação proposta não pretende estabelecer equivalências entre os sistemas teóricos, mas investigar como uma situação corporal concreta pode oferecer elementos para refletir sobre espera, experiência psíquica da passividade e dependência, integração psicossomática e possibilidade de experimentar a presença do outro.
Nesse texto retomamos as contribuições de Melanie Klein sobre as primeiras relações de objeto e contribuições de Donald Winnicott acerca da dependência inicial, da sustentação ambiental e da possibilidade de estar só na presença de alguém.
Entre a Acupuntura e a Psicanálise
A acupuntura possui fundamentos próprios na medicina tradicional chinesa, nos quais o corpo é compreendido por meio de relações dinâmicas entre funções, trajetos e estados de equilíbrio. A acupuntura, ao trabalhar tradicionalmente com pontos, trajetos e estados de excesso ou deficiência, oferece uma tradição de leitura na qual o corpo aparece como um campo de relações e regulações, o corpo é pensado a partir de relações dinâmicas entre diferentes estados. Ele nunca será algo estático, precisa lidar continuamente com tensão e satisfação.
Embora essa concepção não corresponda à metapsicologia psicanalítica, ela permite estabelecer um diálogo em torno de uma questão mais ampla: a maneira como diferentes formas de cuidado procuram lidar com estados corporais que o sujeito experimenta como desconfortáveis, excessivos ou difíceis de tolerar.
Um organismo dependente necessita de um ambiente que possibilite a transformação de estados brutos em experiências progressivamente integráveis. Podemos pensar os primeiros momentos da vida como uma passagem entre estados de excesso, falta, tensão e descarga que tem continuidade até depois da fase adulta. O bebê vive intensidades antes de poder representar o que vive em palavras e essas intensidades vão adquirindo uma organização psíquica através das relações dele com os objetos e com o ambiente.
Na situação clínica da acupuntura, a pessoa participa de um procedimento que envolve a inserção de agulhas, a permanência em determinada posição durante um intervalo de tempo. Dependendo da pessoa, do contexto e da maneira como a sessão é conduzida, essa situação pode ser acompanhada por relaxamento e atenção às sensações corporais. O relaxamento pode ser vivido como alívio corporal sem necessariamente produzir qualquer mudança na organização psíquica como pode produzir maior sensibilidade corporal, lembranças, imagens ou estados emocionais influenciados pelos estímulos colocando o sujeito em uma situação de vulnerabilidade ou descontrole.
Importante frisar que a acupuntura pensada no contexto analítico nao faz uma relação universal entre sensação corporal e significado psíquico como acontece dentro da teoria tradicional da medicina chinesa.
O interesse psicanalítico está em considerar que a experiência corporal nunca precisa ser compreendida exclusivamente como um acontecimento fisiológico. O corpo vivido pelo sujeito participa de uma história de relações, expectativas, satisfações e frustrações. Uma sensação de tensão pode ser percebida apenas como desconforto físico, mas também pode adquirir significados associados ao passado do sujeito.
A experiência não depende exclusivamente daquilo que acontece no corpo nem apenas do significado que o profissional atribuiu. Essa distinção é importante para evitar que a prática corporal seja interpretada a partir de um significado universal. Não existe fundamento para afirmar, por exemplo, que determinada sensação durante a inserção de uma agulha corresponda necessariamente a uma ansiedade primitiva, ou que o relaxamento experimentado pelo paciente demonstre uma regressão bem-sucedida. O significado de uma experiência depende de sua singularidade e, quando pertinente, da possibilidade de elaborá-la por meio da fala e da relação clínica.
A maca e o divã: silêncio e presença na experiência do cuidado e da associação livre.
Na vida cotidiana, o funcionamento psíquico do adulto costuma estar organizado em torno de uma atividade relativamente contínua, na qual é necessário responder às demandas externas, antecipar acontecimentos, administrar responsabilidades e manter alguma capacidade de controle sobre o ambiente. Mesmo nos momentos de repouso, frequentemente permanecemos envolvidos em atividades mentais que reproduzem as exigências do cotidiano, como planejar, avaliar situações, recordar acontecimentos ou antecipar dificuldades.
Introduzir uma ruptura temporária nessa organização através da diminuição da atividade motora e do silêncio, pode gerar maior atenção às sensações corporais. A ausência de exigências comunicativas podem favorecer uma experiência na qual o sujeito se torna menos dependente de suas formas habituais de organização e controle.
Na situação analítica, o divã é uma metodologia de trabalho que procura reduzir a necessidade de organizar o discurso em função das reações visíveis do analista. O divã participa, assim, de um enquadre no qual a fala pode adquirir uma organização menos submetida às exigências imediatas da comunicação e das situações cotidianas, favorecendo a associação livre de pensamentos. O analisando pode encontrar maior liberdade para seguir o curso de seus pensamentos, inclusive quando estes se apresentam de maneira fragmentada, contraditória ou aparentemente desprovida de sentido.
No divã, o silêncio está inserido em uma relação transferencial e procura favorecer a expressão de conteúdos inconscientes, sua interpretação e sua elaboração. A presença do analista continua fazendo parte do enquadre, mesmo quando não se manifesta por meio de uma intervenção verbal imediata. A possibilidade de falar, recordar ou permanecer momentaneamente sem palavras depende, em alguma medida, da experiência que o analisando tem da situação analítica e da confiança construída ao longo do tratamento.
O silêncio do analista, nesse contexto, não deve ser entendido como simples ausência, pois integra uma posição clínica específica, orientada pela escuta e pela atenção ao processo analítico. Na situação analítica, essas experiências podem integrar a dinâmica transferencial e tornar-se acessíveis à elaboração por meio da interpretação.
A situação da acupuntura pode ser entendida com a finalidade de maior integração psíquica. O uso de finas agulhas pelo corpo, podem proporcionar ao sujeito uma imobilidade. Na maca de acupuntura, o paciente permanece deitado, muitas vezes com os olhos fechados. A presença do profissional também pode ser percebida sem que precise se manifestar continuamente por meio de intervenções. A pessoa que recebe o tratamento pode, assim, experimentar uma forma de recolhimento. A particularidade dessa situação reside no fato de que a pessoa não está simplesmente sozinha, entregue ao próprio corpo, mas permanece em um ambiente no qual outro indivíduo participa ativamente da organização do cuidado, mesmo quando sua intervenção direta se torna pouco perceptível.
Essa condição pode favorecer uma experiência de continuidade e não precisa continuamente verificar se ainda está sendo considerada ou acompanhada. O silêncio pode deixar de representar uma interrupção da relação para se tornar parte da própria situação de cuidado. Em vez de organizar continuamente sua experiência em função de uma conversa, a pessoa pode direcionar a atenção para sensações corporais, variações de tensão, pensamentos espontâneos ou lembranças que emergem durante o repouso. Essa condição pode permitir que experimente formas de passividade que, em outros contextos, seriam difíceis de tolerar.
O que torna essa experiência potencialmente interessante não é uma suposta reprodução da relação mãe-bebê, mas a possibilidade de observar como o sujeito se relaciona com a própria dependência quando ela é colocada em uma situação concreta de cuidado. Com o uso de ambos os dispositivos (maca/divã) é possível que o paciente se dirija ao próprio fluxo associativo.
A presença silenciosa pode ser experimentada como tranquilizadora por algumas pessoas e como fonte de inquietação por outras. O corpo não é apenas o lugar no qual o procedimento acontece, mas o meio pelo qual a pessoa vivencia a espera, a vulnerabilidade, o contato e a presença do outro. A imobilidade, a espera ou a entrega em situação clinica pode oferecer um contexto no qual determinadas questões se tornam perceptíveis, podem despertar inquietação, necessidade de controle e desconforto, tornando visíveis dificuldades que não se manifestavam com a mesma intensidade em situações cotidianas.
A história de cada sujeito e a qualidade concreta da relação estabelecida participam da maneira como essa experiência é vivida. Quando essas dimensões são consideradas sem reducionismo, torna-se possível investigar a maneira como uma experiência corporal participa da relação que o sujeito estabelece consigo mesmo e com o ambiente. O tratamento, por si só, não necessariamente vai produzir elaboração psíquica, a nao ser que ele seja trabalhado em contexto clinico. A experiência dependerá das condições do procedimento, da relação estabelecida com o profissional e da história particular do paciente.
Nesse ponto, é importante distinguir a presença física do outro de sua presença enquanto referência de segurança. Um profissional pode permanecer no mesmo ambiente sem que sua presença seja experimentada como sustentadora, assim como pode realizar uma intervenção cuidadosa sem que isso produza necessariamente uma experiência de confiança. A sustentação depende da maneira como o sujeito percebe e utiliza o ambiente, e não apenas da existência objetiva de alguém nas proximidades.
Para que essa analogia seja pertinente, é necessário considerar a maneira como o procedimento é conduzido, a qualidade da relação estabelecida, a previsibilidade do ambiente e a possibilidade de o paciente expressar suas necessidades. Uma intervenção invasiva, realizada sem explicação ou contra a vontade da pessoa, pode produzir uma experiência inteiramente diferente daquela em que o sujeito participa de maneira consentida e encontra condições para se sentir seguro.
A situação da maca/divã, evidentemente, não reproduz o desenvolvimento infantil, pois o adulto possui recursos simbólicos, cognitivos e relacionais que o bebê ainda não desenvolveu. A regressão não decorre automaticamente da posição corporal, nem deve ser inferida apenas a partir do silêncio ou do relaxamento. Ela precisa ser compreendida em relação ao funcionamento psíquico do sujeito e às condições específicas do enquadre em que ocorre. Ainda assim, essa experiencia pode oferecer uma oportunidade para observar como a espera é vivenciada quando existe uma referência ambiental relativamente estável.
A seguir faremos uma análise de alguns conceitos psicanalíticos para compreender a situação da maca/divã e possíveis retornos a formas arcaicas de dependência.
Regressão em Winnicott
A contribuição de Winnicott permite distinguir a regressão sustentada de uma situação de desamparo. Em Winnicott, a regressão pode ser compreendida, em determinadas condições clínicas, como um movimento de retorno a formas de dependência que não puderam encontrar sustentação suficiente em experiências anteriores. Como um adulto, conservando suas capacidades de orientação e compreensão da realidade, pode experimentar temporariamente uma posição de maior passividade e dependência?
O desenvolvimento emocional inicial ocorre em condições de dependência radical, nas quais o bebê ainda não possui recursos suficientes para reconhecer sua dependência como uma relação entre duas pessoas distintas. O ambiente participa diretamente das condições que tornam possível a continuidade de sua existência, protegendo-o de exigências e estímulos que ultrapassariam sua capacidade de integração.
O aspecto decisivo dessa experiência não é a passividade considerada isoladamente, mas a relação que se estabelece entre ela e as condições ambientais nas quais ocorre. A possibilidade de abandonar parcialmente o controle depende, em alguma medida, de que o sujeito perceba a situação como suficientemente segura e de que conserve a possibilidade de comunicar desconforto, solicitar ajuda ou interromper o procedimento.
O conceito de holding expressa essa função de sustentação. Embora seja frequentemente associado ao ato de segurar fisicamente o bebê, seu significado é mais abrangente, incluindo a maneira como o ambiente organiza os cuidados, protege contra intrusões excessivas e oferece uma continuidade suficientemente estável. O holding não elimina todas as tensões nem impede a ocorrência de frustrações, mas proporciona condições para que o bebê atravesse suas experiências sem ser continuamente confrontado com exigências para as quais ainda não dispõe de recursos psíquicos adequados.
A dependência inicial, nessa perspectiva, não constitui simplesmente uma condição de fragilidade que deve ser superada o mais rapidamente possível. Ela representa uma dimensão fundamental do desenvolvimento, pois é a partir de uma experiência suficientemente confiável de sustentação que se torna possível desenvolver recursos para lidar com a ausência, a frustração e a separação. A autonomia não surge, portanto, pela eliminação da dependência, mas a partir de experiências nas quais depender de alguém não significa necessariamente perder a continuidade de si.
Entre as contribuições de Winnicott, a capacidade de estar só na presença de alguém oferece uma chave particularmente relevante para compreender a situação descrita. Em seu desenvolvimento inicial, essa capacidade depende de experiências nas quais o bebê pode permanecer relativamente recolhido enquanto a presença da mãe ou de outra figura cuidadora continua oferecendo sustentação ao ambiente. A presença do outro não precisa se manifestar continuamente por meio de palavras, movimentos ou intervenções, pois a experiência repetida de confiabilidade permite que ela adquira uma qualidade mais estável. A possibilidade de estar só não se origina, portanto, de uma independência absoluta em relação ao outro, mas de uma experiência de confiabilidade que permite ao indivíduo não precisar manter um contato permanente para assegurar a continuidade da relação.
Essa condição não deve ser confundida com a ausência de relação. Pelo contrário, a capacidade de estar só se desenvolve a partir de uma relação suficientemente boa, na qual a presença do outro pode ser experimentada sem exigir uma resposta permanente. É possível aproximar essa experiência da confiança que se desenvolve quando o bebê começa a tolerar pequenos intervalos entre a necessidade e a resposta do ambiente. Essa capacidade não depende apenas da duração objetiva da espera, mas da experiência acumulada de que a figura cuidadora permanece disponível e de que a relação não se desfaz quando a satisfação não é imediata.
Para algumas pessoas, a experiência do silencio e da distância podem ser especialmente significativos porque costumam estar associados a situações anteriores de abandono, rejeição ou imprevisibilidade. Nessas circunstâncias, a ausência de uma resposta imediata do outro pode despertar inquietação e necessidade de restabelecer o contato. Para outras pessoas, a presença silenciosa pode ser experimentada como uma condição de descanso, na qual não é necessário produzir uma resposta e/ou corresponder a expectativas.
A diferença não está simplesmente no silêncio em si, mas no significado que ele adquire dentro de uma determinada relação. Quando o silêncio é acompanhado por uma experiência de confiabilidade, pode permitir que o sujeito permaneça em contato consigo mesmo sem precisar interpretar a ausência de comunicação como sinal de desinteresse ou abandono. Quando a situação é percebida como imprevisível ou ameaçadora, o mesmo silêncio pode produzir efeitos opostos.
É nesse sentido que a experiência da maca permite formular uma questão central: em que condições a dependência pode ser experimentada sem que se transforme necessariamente em desamparo?
A contribuição de Winnicott permite, portanto, pensar a situação da maca como uma configuração que pode favorecer, em determinadas condições, uma experiência de dependência sustentada. A pessoa não precisa abandonar sua autonomia nem perder a capacidade de reconhecer a realidade externa para experimentar um estado de maior entrega. Pode permanecer adulta, orientada e consciente do procedimento enquanto se permite descansar temporariamente das exigências de controle que habitualmente organizam sua relação com o mundo.
Essa condição não implica que o paciente vivencie necessariamente uma regressão, nem que o silêncio produza por si só um estado psíquico específico. Algumas pessoas podem permanecer mentalmente ativas, outras podem sentir desconforto com a imobilidade, enquanto outras podem experimentar relaxamento ou maior contato com sensações internas. O interesse psicanalítico reside justamente em investigar como uma mesma situação externa pode adquirir significados distintos de acordo com a história do sujeito, suas modalidades de relação com o cuidado e sua capacidade de tolerar estados de dependência.
A sustentação não consiste em eliminar toda tensão, mas em oferecer condições para que a experiência possa ocorrer sem que a pessoa seja submetida a exigências que ultrapassem sua capacidade de tolerá-las.
Melanie Klein: cisão e interação, voracidade e experiência de esperar
Melanie Klein desloca o foco da sustentação ambiental para a maneira como o sujeito organiza internamente suas primeiras relações com os objetos. Em sua teoria, o bebê não estabelece inicialmente uma relação integrada com a mãe como pessoa total, mas vivencia experiências que se organizam em torno de aspectos do objeto associados à satisfação ou à frustração. O seio constitui um dos primeiros objetos dessa relação e concentra fantasias e ansiedades relacionadas à alimentação, à incorporação e à possibilidade de perder aquilo que proporciona satisfação.
O seio bom corresponde, na experiência fantasmática (fantasiosa) do bebê, ao objeto que alimenta, acolhe e satisfaz. O seio mau está relacionado à frustração, à ausência e à experiência de não encontrar o objeto quando a necessidade se apresenta. Essa distinção não significa que o bebê esteja simplesmente avaliando o comportamento materno de maneira consciente, mas que suas experiências emocionais iniciais podem ser organizadas por processos de cisão, nos quais os aspectos satisfatórios e frustrantes do objeto ainda não são integrados em uma representação relativamente estável.
A teoria Kleiniana permite aprofundar a discussão ao considerar que a relação inicial com o objeto não envolve apenas a busca por satisfação, mas também a presença de impulsos agressivos. A voracidade pode ser compreendida como uma modalidade de relação na qual o sujeito busca apropriar-se intensamente daquilo que considera bom, como se a incorporação pudesse protegê-lo da perda ou da ausência futura. A voracidade não se limita à intensidade da fome física, embora a experiência alimentar seja uma dimensão fundamental da relação inicial com o objeto.
O bebê pode experimentar o desejo de incorporar o objeto bom e, simultaneamente, fantasias de atacá-lo ou destruí-lo. Essa coexistência entre amor e agressividade constitui um aspecto fundamental do desenvolvimento emocional, pois o objeto que proporciona satisfação também pode frustrar e despertar sentimentos intensos.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que a espera pode adquirir um caráter tão intenso. Quando a satisfação depende de um objeto externo, existe sempre a possibilidade de que esse objeto não esteja imediatamente disponível. A espera confronta o bebê com uma condição que ele ainda não consegue administrar por meio de uma compreensão estável da continuidade do objeto. A frustração pode ser vivida como uma ameaça à própria possibilidade de satisfação, e as fantasias agressivas podem intensificar-se quando o objeto é experimentado como fonte de privação e ansiedade persecutória, característica da posição esquizoparanóide.
Por meio de mecanismos como a cisão e a projeção, aspectos agressivos da experiência podem ser atribuídos ao objeto, que passa a ser vivido como ameaçador.
Dessa maneira, a relação com aquilo que deveria satisfazer pode adquirir uma dimensão persecutória, sobretudo quando a frustração é experimentada como intolerável. Nesse caso a situação de espera na maca da acupuntura pode adquirir significados negativos. Algumas pessoas podem podem associar inconscientemente a entrega corporal, o silêncio e a imobilidade à possibilidade de ser invadida ou abandonada. O sujeito pode esperar que o outro corresponda às suas necessidades, pode interpretar a ausência de intervenção como desinteresse.
A passagem para a posição depressiva
Na posição esquizoparanóide, a cisão permite que os aspectos bons e maus do objeto sejam mantidos relativamente separados, reduzindo temporariamente a complexidade de uma relação na qual satisfação e frustração pertencem ao mesmo objeto. Com o desenvolvimento, torna-se progressivamente possível reconhecer que o objeto amado e o objeto que frustra são aspectos de uma mesma pessoa. Essa integração caracteriza a passagem para a posição depressiva e introduz uma modalidade diferente de ansiedade, relacionada à possibilidade de ter danificado, na fantasia, o objeto que também é amado e necessário.
A posição depressiva não corresponde simplesmente a um estado de tristeza. A possibilidade de reconhecer uma unidade permite o surgimento de preocupação, culpa e desejo de reparação. O objeto passa a ser valorizado não apenas por aquilo que proporciona, mas também por sua existência relativamente independente dos desejos do sujeito. A relação torna-se, assim, mais complexa, pois envolve a possibilidade de tolerar a frustração sem que ela implique necessariamente a destruição do objeto ou o desaparecimento de sua dimensão boa.
Essa experiência pode ser significativa porque envolve uma forma de tolerância à separação relativa entre a própria necessidade e a ação do outro. O sujeito não precisa obter uma resposta imediata a cada movimento interno para que a relação permaneça confiável. Pode experimentar sensações, esperar e continuar reconhecendo a existência do profissional sem que a ausência momentânea de intervenção seja automaticamente interpretada como ameaça.
A questão kleiniana que se coloca é: como a experiência de depender de um objeto externo pode mobilizar diferentes expectativas acerca da satisfação, da frustração e da continuidade do cuidado?
A aproximação torna-se especialmente interessante quando consideramos que a confiança não exige a eliminação da agressividade, da ambivalência ou da frustração. Ela depende da possibilidade de reconhecer que uma relação pode continuar existindo apesar dessas experiências. O outro pode não responder imediatamente e pode conduzir o procedimento de acordo com um ritmo que não coincide integralmente com o desejo do paciente, sem que isso implique necessariamente uma ruptura do vínculo. A continuidade do cuidado não depende de uma resposta imediata a cada sensação ou pensamento do paciente, mas de uma organização da situação que permita compreender o silêncio como parte do procedimento, e não necessariamente como sinal de abandono.
Nesse sentido, a relação com o profissional pode adquirir significados que ultrapassam o procedimento técnico, embora não seja possível determinar previamente quais serão esses significados.
É importante, entretanto, não equiparar essa possibilidade à elaboração da posição depressiva. Os conceitos Kleinianos dizem respeito a processos fundamentais da organização psíquica, e uma experiência isolada de cuidado corporal não demonstra que houve uma transformação estrutural na relação com os objetos.
Considerações finais: o corpo, o cuidado e a possibilidade de depender
A situação de permanecer deitado em uma maca, recebendo agulhas de acupuntura, oferece uma oportunidade para pensar a relação entre corpo, dependência e presença, sobretudo quando o procedimento é realizado em condições nas quais a pessoa pode permanecer relativamente imóvel, em silêncio e sem a necessidade de responder continuamente às exigências externas.
A aproximação com Winnicott permite perguntar se a situação oferece condições para que o sujeito experimente uma forma de repouso na qual não precise organizar continuamente sua relação com o ambiente. A sustentação ambiental participa da constituição de uma experiência de continuidade de ser, oferecendo condições para que o sujeito desenvolva progressivamente recursos próprios. Ele nos permite compreender a importância de um ambiente que sustenta sem invadir e que oferece condições para que o sujeito possa recolher-se sem perder a referência da presença do outro. A possibilidade de permanecer só na presença de alguém constitui, nesse sentido, um eixo teórico relevante para compreender a experiência de cuidado.
A aproximação com Klein permite investigar como a espera e a dependência cisão/integração, voracidade/espera podem mobilizar expectativas relacionadas à satisfação, à frustração e à continuidade do objeto. Ela contribui para pensar como as experiências de satisfação e frustração participam da organização das primeiras relações de objeto, bem como a maneira pela qual a ansiedade persecutória e a dificuldade de integrar aspectos bons e maus do objeto podem influenciar a vivência da dependência. A integração do objeto permite reconhecer que aquilo que satisfaz e aquilo que frustra pertencem à mesma pessoa, favorecendo a elaboração da ambivalência, preocupação com o outro e reparação.
Embora as duas teorias tenham diferenças importantes, ambas reconhecem, por caminhos distintos, a relevância das primeiras experiências de dependência para a organização posterior da vida emocional.
A articulação entre Winnicott, Klein e a situação da maca/divã permite retomar a questão central deste artigo: a possibilidade de depender de alguém sem experimentar essa dependência exclusivamente como ameaça. O desenvolvimento psíquico não consiste em eliminar a necessidade do outro, mas em construir condições para que a relação com ele possa ser vivida de maneira mais estável, sem que cada intervalo, frustração ou afastamento seja necessariamente experimentado como ruptura.
O que se pretende investigar não é a equivalência entre o tratamento corporal e o processo analítico, mas a possibilidade de que determinadas condições de cuidado favoreçam experiências nas quais a pessoa possa permanecer em contato consigo através da imobilidade, espera e silêncio, que podem gerar um fluxo associativo de ideias. A comparação entre a maca da acupuntura e o divã permite, portanto, pensar duas situações nas quais o sujeito pode experimentar uma diminuição das exigências de interação direta com o outro. Em ambas, a presença de alguém pode permanecer como referência enquanto a pessoa se volta para sua própria experiência, favorecendo material psíquico e inconsciente orientado pela associação livre através da transferência.
É nesse ponto que a aproximação entre acupuntura e psicanálise encontra sua questão central: a possibilidade de que o cuidado corporal, quando oferecido em condições de segurança, consentimento e continuidade, proporcione uma experiência na qual a dependência possa ser tolerada e o recolhimento não precise se transformar em isolamento. Essas técnicas juntas potencializam uma modalidade de cuidado na qual a presença do outro não depende de sua intervenção constante. A experiência de ser sustentado pode envolver justamente essa possibilidade de permanecer consigo mesmo, em contato com as próprias sensações, sem precisar assumir continuamente o controle da situação ou verificar a cada instante se a relação continua existindo.
A pessoa pode esperar sem estar necessariamente abandonada, permanecer em silêncio sem que o outro deixe de existir e entregar-se parcialmente ao cuidado sem que isso signifique renunciar à própria autonomia.
Essa possibilidade não constitui uma propriedade universal da acupuntura, mas uma hipótese de investigação sobre a dimensão subjetiva das práticas de cuidado. Seu interesse reside em permitir que o corpo seja pensado não apenas como organismo submetido a intervenções, mas também como lugar de experiências relacionais singulares. A maca e o divã podem, assim, ser compreendidos como dispositivos que, em determinadas circunstâncias, modificam a relação habitual entre atividade, percepção e presença.
Referencias
* Donald W. Winnicott — Da pediatria à psicanálise: para discutir a dependência inicial, o ambiente facilitador e a integração psicossomática.
* Donald W. Winnicott — O ambiente e os processos de maturação: para aprofundar o holding, a continuidade de ser e a capacidade de estar só.
* Melanie Klein — Inveja e gratidão e outros trabalhos: para desenvolver as relações entre seio bom, voracidade, agressividade, ansiedade persecutória e posição depressiva.